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Segunda Feira, 24 de setembro de 2018

Ensaio Sobre Suicídio


Sergio P. Gil de Alcantara 1

Algumas notícias nos sobrevêm revelando mortes por suicídios de líderes evangélicos, pais de famílias, adolescentes, jovens universitários, e outros. As notícias sempre chocam por mantermos em imaginário religioso, pelo menos em grande parte de nossa sociedade, algumas afirmações legitimadas por tabus. Como por exemplo, as proibições específicas para o suicídio, inclusive, a negação de entrada nos céus. E ainda, que o suicídio não é perdoado por Deus, por isso uma condenação eterna e sofrimentos, aguardam pelo suicida. Pois bem, neste ensaio, o objetivo não é realizar arrazoamentos teológicos sobre o assunto, mas antes, considerar em breve momento, a visão psicanalítica sobre o ato suicida. Para tanto, considerar a etimologia da palavra e seu conceito seria interessante para iniciar esta reflexão.

A palavra suicídio tem sua origem na língua grega, composta de autos (autós), que significa "próprio" e σκοτώσει (skotosei), que significa "matar", αυτοκτονία (autoktonia), que significa "suicídio". Desta feita, é o ato de matar a si mesmo, ou o ato intencional de matar a si mesmo. Também há versões que agregam a palavra latina occidere, que quer dizer "matar". Ao entendermos sobre a etimologia da palavra "suicídio", percebemos que o ato expressa o esgotar com a própria vida, mas não nos ajuda a compreender como isso ocorre se há fatores de riscos, se há tipos de suicídio, ou se há métodos.

Antes de revelar ao leitor, minha compreensão de como ocorre o suicídio, importa perceber quais são os fatores de risco. O ato de suicida está estreitamente ligado às manifestações depressivas, abusos de drogas, alcoolismo, stress (incluindo a síndrome de burnout), dificuldades econômica, grandes perdas materiais e afetivas, problemas com relacionamentos, bullying, e as manifestações psicóticas, tais como, manias depressivas (também conhecido como bipolaridade), e esquizofrenia. Todos que se encontram nessas condições, tornam-se potenciais suicidas (WERLANG. BOTEGA, 2004).

Conhecer os fatores de risco é tão importante quanto conhecer os tipos possíveis para o ato suicida. Além do homicídio suicídio, tipificam-se o ataque suicida, o suicídio em massa, o pacto suicida, a eutanásia, promovida com a intenção de proporcionar morte indolor para aliviar a dor. No suicídio assistido, a própria pessoa tem condições do ato que dará fim a sua própria vida, sendo assistido por um profissional de saúde. A ortotanásia ou "ortotanásia passiva", que consiste na suspensão de tratamentos e medicamentos ao doente, em fase final de vida. Por último a automutilação, que trata da lesão auto infligida. Lesões intencionais, que podem variar entre cortes, queimaduras, chicotadas, ou a utilização de objetos perfurantes. A síndrome borderline é marcada por um sentimento de auto condenação, ou a necessidade de retribuir com dor, algum ato não aceitável e não admitido (HEGENBERG, 2000).

Os principais métodos para suicídio são enforcamento, envenenamento por drogas ou pesticidas, lançamento de lugares altos, ou em rodovias, e armas de fogo. A cada 40 segundos no mundo e a cada 45 minutos no Brasil, ocorre um suicídio. No Brasil, entre 2007 e 2017, houve 106.344 notificações de suicídios. Somente em 2017, foram 11.433 mortes, ou seja, 5,8 por cada 100.000 habitantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018).

Uma pesquisa realizada no século passado, e publicada em 1912, por um dos pais da sociologia, Émille Durkheim, denominada de "O Suicídio", é bem relevante para o desenvolvimento deste assunto. Os muitos casos ocorridos na França, na época do autor, chamaram-lhe à atenção. A fim de explicar os tantos acontecimentos suicidas, procurou dados em cartórios e delegacias de polícia. Como resultados de pesquisas, Durkheim argumenta que há quatro tipos de suicídio. Suicídio egoísta, que denota extremo individualismo extremado, e a desintegração social, com isolamentos das famílias, amigos e comunidades. Suicídio altruísta, em que o indivíduo é coagido a tirar a própria vida por ideal, uma crença, em obediência. Suicídio anômico, exercido por indivíduos que não suportam as mudanças sociais, econômicas, ou porque passam por Transformações sociais. Outros dados são apurados pelo autor. O suicídio fatalista, que ocorre quando uma pessoa é excessivamente regulada, quando seus futuros são impiedosamente bloqueados, e as paixões violentamente estranguladas por disciplina opressiva. O perfil do suicida na França era constituído por dados que revela grande número de solteiros isolados da família, mulheres sem filhos, e de religião protestante calvinista (DURKHEIM, 2011).

Neste trabalho, apenas apresento alguns dados para que nos próximos escritos avancemos sobre o assunto. No entanto, faz-se necessário a abordagem, ainda que superficial e incipiente sobre o inconsciente, a instância psíquica da qual se originam a pulsão e o desejo. Justamente para nos debruçarmos sobre a motivação de um ato suicida. Vale à pena lembrar que Freud afirma que o consciente abriga uma energia denominada de libidinal, a qual movimenta o desejo e as pulsões. Pulsão de vida e pulsão de morte. A dualidade pulsional, proposta por Freud, sobre a pulsão é que existam a pulsão sexual e a pulsão de autoconservação. Levando-se em conta tais afirmações, onde caberia o desejo de aniquilação da própria vida? O recalcamento seria uma boa resposta. Algo calcado e recalcado, porque não é possível manter em consciente, o que causa dor, tornando a ab-reação insustentável. O mecanismo de defesa do ego é o recalcamento (GARCIA-ROZA, 2009). No entanto, o conteúdo recalcado não desaparece, e seu represamento libidinal se torna indominável, tamanha dor insuportável.

Segundo Freud, o inconsciente desconhece a dúvida e a negação, não existe proibição, é atemporal, vive no presente, não leva em conta a realidade, e tende à satisfação do desejo (FREUD, 1996). Teoricamente, o suicida quer findar a dor.

Quer se aprofundar um pouco mais sobre esse assunto tão atual? Então acompanhe os novos ensaios que fluirão, aqui mesmo nesse canal de comunicação, que é o nosso site.

Até a próxima!


1 Sergio Paulo Gil de Alcantara é mestre em ciências das religiões (PPGCdR/FUV), pós-graduado em ensino escolar religioso (ESAB), pós-graduado em teoria psicanalítica (FAMAC), psicanalista (CEPTEP), bacharel em sociologia (UFF), bacharel em teologia (EST).

Referências

DURKHEIM, Émille. O suicídio. Estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

FREUD, Sigmund. O ego e o id e outros trabalhos. Edição Standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009

HEGENBERG, M. Borderline. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Disponível em: Visitado em 21/09/2018

WERLANG B. G. BOTEGA N. J. Comportamento Suicida. Porto Alegre: Artmed, 2004.