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Quinta feira, 12 de abril de 2018

Atos Falhos: Erros ou acertos?


Bruno Carneiro

Você já trocou o nome de alguém ou falou determinada palavra querendo dizer outra? No cotidiano as pessoas podem definir esses pequenos lapsos simplesmente como erros, falhas, equívocos, ou ações que ocorrem “sem querer”, fruto de uma desatenção ou cansaço. Mas para a psicanálise esses considerados “erros” não são apenas erros, são atos falhos. O termo é popularmente aplicado de forma humorística quando uma pessoa comete alguma falha ao falar, porém, suas implicações são mais profundas, pois se está falando de ações cotidianas que são inconscientes.

A teoria psicanalítica está fundamentada na atividade mental inconsciente e o ato falho (Fehlleistung, em alemão) ou parapráxis representa uma manifestação de um desejo ou conteúdo inconsciente através de erro na fala, erro na leitura, erro na escrita, na falha de memória ou mesmo de comportamento, como por exemplo, tropeçar ou cair. Vale enfatizar que para Freud existiriam três tipos de atos falhos, explicados e exemplificados no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana de 1901, atos falhos de linguagem, de esquecimento e de comportamento.

Freud demonstrou que o inconsciente pode ser percebido por meio dos atos falhos e que os erros comuns teriam um sentido oculto a ser ressaltado através do erro, não se tratando de algo aleatório ou desprovido de significado. Tendo em vista estas questões, se através do ato falho o desejo inconsciente é realizado, não se tratando de uma ação simplesmente acidental, somosconvidados a diferencia-lo da noção comum de erro e podemos fazer a seguinte pergunta: Os atos falhos seriam erros ou acertos?

Eles são atos que falharam e ao mesmo tempo foram bem sucedidos, foram tomados como erros devido ao conteúdo inconsciente ser desconhecido conscientemente. Dentro desta perspectiva, não houve um erro se o desejo inconsciente foi realizado. Como declarou o psicanalista francês Jacques Lacan: “Nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Elas revelam uma verdade por detrás.”


Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. As sutilezas de um ato falho. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, J. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Zahar, 2009.